Parte 2  >>  Webwriting

Webwriting é arte de escrever para internet[1]. Embora o resultado seja um texto simples, sua prática exige conhecimentos teóricos das características desta mídia, que alia texto, design e tecnologia em um único componente: a informação (RODRIGUESa, 2001). Não por acaso, alguns cursos de especialização têm surgido para preparar os profissionais desta área.

O texto na web não é alterado, o que muda é sua apresentação, que deve ser extremamente direta e agradável, além de poder contar com links para páginas complementares sobre o assunto, dando ao leitor todo o contexto da notícia. Desta forma, é possível explorar matérias antigas através de uma notícia de tema semelhante.

“(...) O texto on-line deve estar numa linha entre o jornalismo impresso e o eletrônico. É mais conciso e multimídia do que o texto impresso, porém mais literal e detalhado do que o de TV, por exemplo. Um bom texto de mídia eletrônica usa sentenças concisas, simples e declarativas, que se atêm a apenas uma idéia. Evitam-se longos períodos e frases na voz passiva” (FERRARI, 2003, p.49).

Como o jornalista tem na escrita sua principal ferramenta de trabalho, é preciso conhecer os fatores que condicionam a redação na web. Bruno Rodrigues (RODRIGUESa, 2001), especialista em webwriting, afirma que esta atividade é um exercício constante de planejar e repensar o conteúdo, obedecendo a três princípios básicos: objetividade, visibilidade e navegabilidade.

Objetividade:

  • 50% do texto impresso pode ser eliminado para a internet, pois a tela do monitor deixa a leitura 25% mais lenta (NIELSEN, 2000).

  • A luz do monitor pode causar fadiga visual (ardência, visão embaçada ou embaralhada), além de dores de cabeça (PINHO, 2003).

  • Por isso, seja direto e não utilize linguagem subjetiva ou complexa. Escreva só o necessário, substituindo palavras longas por sinônimos curtos.

No jornalismo on-line o texto precisa ser claro, conciso e objetivo - "jogos de palavras, piadinhas e brincadeiras nos títulos e textos não funcionam. É preciso dizer logo a notícia" (VISONE Apud PINHO, 2003, p. 198). Deve-se assim, evitar o uso de termos pouco conhecidos, reduzindo o uso de itens léxicos (palavras e expressões) e o de operadores (regras gramaticais) de uso corrente, para otimizar a comunicação e agilizar a produção do texto (FERRARI, 2003).

Visibilidade:

  • Evite textos longos e contínuos.

  • Organize o texto em parágrafos curtos, com subtítulos, e se possível, resuma as informações mais importantes em tópicos.

  • Assim, se o usuário não quiser ler todo o texto, obterá as informações que precisa ao passar os olhos pela página.

A principal audiência da web está concentrada nos leitores scanners, que se limitam a fazer uma leitura superficial, ou seja, um “varrimento” visual em busca de palavras ou frases que lhes interessem (PINHO, 2003).

"Um estudo conduzido em 1997 pela Sun Microsystem revelou que 79% das pessoas que visitam os sites da web correm os olhos por toda a tela e fixam-se em um outro lugar, em vez de ler a página inteira, palavra por palavra (...). Dessa maneira o internauta que navega em páginas de hipertexto vai acumulando conhecimento, segundo o seu interesse e até se satisfazer" (HOLTZ Apud PINHO, 2002, p.56).

Para lidar com este público, texto e design devem trabalhar juntos na web. Persuadir o leitor a navegar pelas páginas de um site exige uma estrutura editorial aliada à programação visual. As páginas devem ser arejadas, com pouco texto e imagem, sendo fundamental a correta utilização do espaço em branco para criar um ambiente agradável.

Navegabilidade:

  • Páginas pesadas desestimulam os visitantes.

  • Estabeleça um limite de 20 linhas por página e segmente os textos longos em várias páginas.

  • Não coloque links no corpo do texto. Os links internos devem ficar no topo da página e os externos no final.

Os usuários desejam encontrar informações rapidamente. A página principal deve exibir apenas os fatos mais recentes, relevantes e de comprovado interesse do visitante, deixando as outras informações acessíveis através de um menu bem estruturado e, se possível, até no terceiro clique.

Em relação às notícias, é essencial dizer rapidamente o fato através do lead[2] e persuadir o leitor a partir para outro texto relacionado, seja um artigo, uma matéria ou a mesma notícia escrita de forma mais elaborada. Os títulos devem apresentar o assunto em poucas palavras e os subtítulos devem resumir a notícia em frases curtas. Ambos devem conter verbos na voz ativa e no presente – com poucas exceções, dependendo do acontecimento.

Segundo o Manual de Estilo da Universidade de Yale[3] (YALE UNIVERSITY, 2004), menos de 10% dos usuários utilizam as barras de rolagem do browser para ir até o final dos documentos. Por isso, assim como nos jornais impressos, é necessário utilizar a pirâmide invertida[4], concentrando as informações mais importantes no inicio do texto, que estará na parte mais visível da página.

Neste aspecto, o hiperlink é a melhor ferramenta da web, pois permite que o texto seja segmentado em quantas páginas for necessário. Mas é preciso cautela ao utilizá-lo, pois pode interromper a leitura do usuário. Enquanto uma imagem pode segurar sua atenção por alguns segundos, um hiperlink pode levá-lo para outra página e a pessoa dificilmente retornará para ler o resto do texto.

“Os programas de rádiojornalismo têm algo a ensinar: no final de um bloco de notícias, exatamente antes dos comerciais, os ouvintes são convidados a permanecer sintonizados na emissora para ouvir outras interessantes e importantes histórias. A interrupção da ação ao final do capítulo de um livro, a conclusão de uma parte do filme ou de um segmento do show mostrados na TV, são equivalentes ao final de uma página web que requer um clique. Faça o link trabalhar para você” (DE WOLK Apud PINHO, 2003, p. 190).

“Estruture esses textos em uma hiper-retórica, dando ao visitante a falsa impressão de controle sobre os links, enquanto o leva para o ponto desejado” (PINHO, 2003, p. 187).

Um site naturalmente possui diversos elementos que disputam a atenção do leitor com o texto. Por isso, os hiperlinks devem ser posicionados de modo que não interrompam a leitura. Evite ao máximo inserir hiperlinks no corpo do texto, em especial os que levam para outros sites - chamados de links externos. A interatividade da rede deve ser respeitada, mas pode ser manipulada. Por isso, só insira links entre o texto caso sejam internos – apontem para outra página do mesmo site.

Por questões de credibilidade, o texto do hiperlink deve apresentar uma idéia real do que haverá na próxima página e cumprir o prometido. Os links externos devem ser de qualidade e relevância, pois recomendações ruins podem frustrar os usuários em relação ao seu site. Hiperlinks de texto são mais efetivos do que os de imagens. O texto tem a vantagem de indicar ao usuário o tipo de conteúdo da página seguinte.

“O rádio, o cinema e a televisão, cada um no seu tempo, surgiram com conteúdos que reproduziam as mídias que os precederam. À medida que eles foram amadurecendo, os conteúdos tornaram-se aos poucos mais adequados ao formato do novo meio. Finalmente foram desenvolvidas formas próprias, como a linguagem radiofônica, a linguagem cinematográfica e a linguagem televisiva, que exploram melhor as características de cada meio e permitem tirar o máximo proveito das suas potencialidades” (PINHO, 2003, p. 181).

“A internet ainda está em gestação, a caminho de uma linguagem própria. Não podemos encará-la apenas como uma mídia que surgiu para viabilizar a convergência entre rádio, jornal [impresso] e televisão. A internet é outra coisa, uma outra verdade e conseqüentemente uma outra mídia, muito ligada à tecnologia e com particularidades únicas” (FERRARI, 2003, p. 45).

Portanto, assim como as mídias tradicionais, a internet possui uma linguagem própria, que a torna única. Entre seus principais desafios, está a necessidade de escrever para páginas que podem ser acessadas independentemente do restante do site, pois na rede, não há um caminho único, as pessoas podem anotar o endereço de uma página específica ou até mesmo encontrá-la por um mecanismo de busca.

Nas demais mídias o suporte de apresentação do conteúdo é fixo, mesmo no caso da televisão: todos os telespectadores vêem a mesma imagem, apesar dos diferentes tamanhos da tela de TV em suas casas. As duas características próprias da web - não ser dotada de um suporte fixo e permitir que os usuários acessem as páginas de maneira não previsível - exigem que o redator desenvolva um conteúdo coerente e adequado tanto para a página web como para o monitor, cujo tamanho não pode de ser previsto.

Desta forma, as páginas não se encadeiam seqüencialmente e devem, portanto, fornecer as informações que contextualizem o texto ou fornecer hiperlinks relacionados. É preciso também redigir para um espaço flexível, que depende da resolução do monitor e da configuração pessoal do usuário, o que dificulta a previsão da estrutura estética do texto.

Acompanhando as características da internet - destaquemos a interatividade, o texto na internet é uma mistura de redação jornalística e publicitária, pois busca ao mesmo tempo informar e persuadir. Segundo Bruno Rodrigues (RODRIGUESa, 2001), é preciso despertar o vendedor que existe em todo webwriter, pois o texto na internet precisa ser persuasivo:

“Primeiro, porque webwriting não é uma linguagem jornalística ou publicitária (...) – é uma mistura das duas. Depois, porque para embarcar nessa viagem é preciso um razoável domínio da redação”. (RODRIGUESa, 2001, p. 10).

“Entre os três estilos de redação - formal, semi-formal e informal - o semi-formal, derivado da publicidade, é utilizado com mais eficácia na internet. O estilo formal chegou a ser usado no início da web comercial, mas ausência de empatia provocou rejeição imediata. O estilo informal é utilizado com sucesso em sites pessoais, blogs e sites de humor ou critica, mas é obviamente restrito” (RODRIGUESb, 2004).

Por fim, apesar de utilizar muitos elementos do texto impresso, a web permite estilos não convencionais de redação - até mesmo “ousadias publicitárias”. O público on-line é mais receptivo e precisa ser seduzido, o que permite que o texto possa ser mais criativo que nas mídias tradicionais. O que deve prevalecer sempre é a objetividade.

Notas:

[1] Também utilizada em qualquer ambiente digital e possível de ser aplicada ao texto impresso.

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[2] Parágrafo inicial que responde a seis perguntas: o que, quem, quando, onde, como e por que.

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[3] http://www.info.med.yale.edu/caim/manual/ (25/11/04).

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[4] Técnica de iniciar o texto com as informações mais importantes (conclusão), começando pelo lead e seguido por informações secundárias organizadas em ordem decrescente.

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